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Influência do pH da calda na eficiência de defensivos agrícolas


Influência do pH da calda na eficiência de defensivos agrícolas

O potencial hidrogeniônico (pH) é uma medida de acidez ou alcalinidade de uma solução em uma escala logarítmica que vai de 0 a 14. Refere-se à concentração relativa dos íons hidrogênio (H+) e hidroxilas (OH-). Quanto menor o pH, maior a acidez (menor alcalinidade), ou seja, maior a quantidade de íons H+ presentes na solução. 


Em relação aos defensivos agrícolas, de forma geral, cada produto possui um pH em que sua eficiência é maior. O glifosato, por exemplo, apresenta máxima eficiência quando o pH do meio é 3,5. Quando o ph da calda é elevado, ocorre a degradação das moléculas por hidrólise alcalina, e o produto perde a eficiência por diminuir a interação com a superfície das folhas. 


Abaixo é mostrado uma tabela com os principais defensivos agrícolas e os respectivos pH ideais para aplicação: 


Tabela 1. Efeito do pH da calda sobre a vida média de produtos fitossanitários, reguladores de crescimento e fertilizantes.



Fonte: Informativo 061 Cooplantio, s.d e Campo & Negócio. Grãos. Fev 2016.


O que ocorre quando o pH da calda é diferente do indicado?

A maioria dos produtos fitossanitários apresentam pH ideal próximo a 5 (Thiesen, et al. 2017), isto é, em meio ácido. Acima dessa faixa os ingredientes ativos passam a sofrer hidrólise alcalina. Abaixo da faixa de pH ideal, passa a ocorrer a hidrólise ácida. Em outras palavras, quando o ph da calda é diferente do indicado, ocorre a quebra das moléculas do produto pela ação da água, afetando a estabilidade do ingrediente ativo. A maioria dos produtos fitossanitários reduzem sua meia-vida hidrolítica quando misturados em água alcalina (Gassen), isto é, o tempo para inativar 50 % do produto é reduzido. Captan e Carbendazin, por exemplo, ambos fungicidas, apresentam meia-vida de 12 minutos em pH acima de 7 e 9, respectivamente. Já em pH entre 5 e 5,5 possuem meia-vida de mais de 30 horas. Ou seja, em determinados produtos, bastam poucos minutos em pH inadequado para o produto perder a estabilidade e eficiência.


Figura 1. Efeito do pH da água sobre a estabilidade do inseticida triclorfom e do herbicida flumiclorac (Arbore). Fonte: Eng. Flávio R. Gassen.

Em outro estudo, realizado por Dinis Gomes Traghetta, mostrou-se que o herbicida atrazina, cujo pH ideal de aplicação é 5, usado para controle de plantas de folhas largas na cultura do milho, em meio muito ácido, com pH abaixo de 2, é totalmente hidrolisado em poucas horas. 

Ainda existem poucos estudos que quantificam as perdas decorrentes da aplicação de defensivos agrícolas com pH de calda não indicado, mas alguns autores dizem que pode haver perdas na eficiência de até 25 % para cada ponto de pH fora da faixa ideal (fonte: Aprosoja). 

Onde encontrar informações a respeito do pH ideal de cada produto?
Estas informações podem ser encontradas em trabalhos científicos ou pergunte ao fabricante.

Precisa de adjuvante para corrigir o pH?
Visto que a maioria dos defensivos agrícolas apresentam pH ideal de aplicação ácido, muitos podem pensar que é necessário adicionar adjuvantes para reduzir o ph da calda e aumentar a eficiência. No entanto, os próprios produtos fitossanitários já possuem capacidade de abaixar o pH do meio, em função da própria acidez do ingrediente ativo. Segundo Bianchi, 1995, em estudo realizado com o herbicida glifosato, quando a água na fonte é próxima a um pH neutro, o controle praticamente não é afetado. O controle passa a ser significativamente afetado quando o pH da fonte da água é próximo a 10, como mostra a figura abaixo: 
Figura 2. Influência da origem da água na eficiência de glifosato em aveia-preta. Fonte: Bianchi, 1995.

Ressaltamos aqui, que apesar de que o indicativo para o glifosato é que seja aplicado em um meio com pH próximo a 3,5, o percentual de controle da aveia-preta foi bastante alto mesmo em condições de pH acima de 4,5. Com esse estudo, podemos concluir que nem sempre será necessário o uso de adjuvantes para acidificar a água da calda, ao menos no que tange ao uso do glifosato, especialmente quando a formulação do produto já consta com tamponantes e acidificantes. No entanto, é sempre muito importante que se faça a verificação tanto do pH da água que está sendo utilizada como do pH da calda já misturada.

Estudos como esse devem ser feitos com mais defensivos agrícolas, a fim de que os produtores não errem na decisão de usar ou não adjuvantes para acidificar o pH do meio. Vemos que o efeito do pH da calda na aplicação de produtos fitossanitários é pouco elucidado e ainda tem muita pesquisa científica que deve ser realizada nesse sentido.

Como acidificar o pH da calda?
Águas alcalinas (pH acima de 7) podem diminuir a eficiência de herbicidas, principalmente dessecantes à base de glifosato, inibidores de ALS e inibidores da ACCase (Mervosh & Balke, 1991; Nalejava & Matysiak, 1993). Souza & Velloso (1996) afirmam que os herbicidas do grupo químico das imidazolinonas (inibidores de ALS), especialmente imazethapyr e imazapyr, têm sua absorção foliar aumentada quando o pH da água utilizada na preparação da calda está na faixa de 4,0 a 4,5. Em estudo realizado por Sanchotene concluiu-se que o controle de arroz-vermelho com inibidores de ALS foi muito mais eficaz utilizando água com ph nesta faixa. Nesses casos, podem ser interessantes a aplicação de produtos ácidos para que não ocorra ineficiências dos herbicidas. No entanto, numa calda existem sais com poder tampão, que em pouco tempo promovem o aumento do pH depois de aplicado um ácido (Kissmann, 1998). Assim, antigamente, além do ácido, deveria se acrescentar um sal adequado (tamponante) para que o pH não voltasse pro estado original. Hoje, existem produtos comerciais que corrigem o pH da calda e que já possuem a capacidade de atuarem como tamponantes, tornando o processo de redução do ph de uma calda mais fácil.
Quais os riscos de acidificar o pH da calda?
De forma geral, o limite inferior do pH é de 3,5 (Gassen). Abaixo desse valor, pode ocorrer problemas por fitotoxicidade nas plantas e má homogeneização na calda, portanto sempre que se adicionar acidificantes à calda de aplicação, deve-se ir medindo o pH com o uso de peagâmetros digitais ou fitas medidoras. 

THIESEN, R., MOREIRA, C. R. Eficiência no uso de adjuvantes na aplicação de fungicida na cultura de milho segunda safra. Rev. Cultivando o Saber, Ed. Especial, p. 144-154, 2017. USDA – UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE. World Agricultural Supply and Demand Estimates (WASDE 577). 2018. Disponível em: http://usda. mannlib.cornell.edu/usda/current/ wasde/wasde-05-11-2018.pdf.;
MACIEL, S. R. Qual o pH adequado da água na aplicação de defensivos. 14/07/2020 | Cultivar Máquinas. Disponível em: https://www.grupocultivar.com.br/noticias/qual-o-ph-adequado-da-agua-na-aplicacao-de-defensivos;  

BETTEGA, M. Mistura em tanque. Disponível em: http://www.aprosoja.com.br/storage/comissoes/arquivos/apresentacao-mistura-em-tanque---mary-bettega.pdf;

GASSEN, F.R. Efeito de acidez da água sobre produtos fitossanitários. Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto, Informativo 061. Disponível em: http://www.terraaviacao.com.br/061AguapH.pdf;

KISSMANN, K.G. Adjuvantes para caldas de produtos fitossanitários. Socidedade de Agronomia de Santa Maria, 1998. p. 39-51. Disponível em: http://w3.ufsm.br/herb/Adjuvantes%20para%20caldas%20de%20produtos%20fitossanitarios%20-%20Kissmann.pdf;

Sanchotene, D.M. Influência de sais e do pH da água na eficiência de imazethapyr + imazapic no controle de arroz-vermelho. Planta daninha v.25 n.2 Viçosa  2007. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-83582007000200023&lng=pt&tlng=pt.

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